terça-feira, 21 de agosto de 2012

- Eu quero ver novela.

Ela disse, plácida.

O pai prendeu a respiração. A mãe lavantou a sobrancelha.

- Não, - ele disse, com aquela didática peculiarmente masculina - novela não é coisa de criança.
- Mas todos os meus amigos assistem.
- Novela não é coisa de criança - insistiu ele, tentando achar tempo para pensar em um argumento melhor construído.
- Você não está sabendo, tem uma novela agora que é para criança. Passa num canal que chama SBT.
- Criança não assiste novela - desnecessário dizer que ele é o pai (de duas).

Aqui em casa novela tem status de Voldemort - aquele cujo nome não deve ser pronunciado. Não se fala, não se vê, não se comenta. E ela, a perfeitinha da mamãe e do papai, brada que quer escolher a sua programação de TV.

Achei muito justo. Sim, achei. E fui conversar.

Expliquei que tanto eu quanto o pai não gostamos de novelas. Não assistimos a novelas. Mas que ela assistisse a essa tal novela para que julgasse se valia a pena gastar seu tempo com isso e também avaliar se os gostos televisivos dos amigos batiam com os dela. Pensativa, me respondeu que não. Me confessou que achava que desenho é que era coisa de criança e que ia continuar assistindo seus canais de sempre.

Se isso é verdade ou não, não sei. Mas escolhi dar um voto de confiança ao deixar claro que ela poderia  escolher o que ver na TV, desde que fossem programas direcionados a crianças.

Eu nunca tive uma filha de sete anos antes, estreei na função há três semanas. As crianças dessa faixa etária estão situadas em um limbo de informação, onde as revistas especializadas mal falam e as mães estão menos enlouquecidas blogando procurando fórmulas perfeitas para criarem seus filhos e mais introspectivas tentando entender toda essa revolução dos sete anos (alguém mencionou retorno de Saturno?).

Ainda não ficou claro para mim o que pode e o que não pode com essa idade. Já vi desde crianças com cabelos pintados (luzes! de verdade) até aquelas que ainda tomam mamadeira antes de dormir. Todas com sete anos. Sim, porque (aí vem spoiler!) depois do cansaço físico, vem o mental. Durmo luxuosas 7 horas toda noite, mas a cabeça estuda minunciosamente cada ação/reação, causa/consequência.

Não sei se passar para ela as responsabilidades de avaliar sua programação, lembrar do seu calendário de provas, entregar as lições em dia e lavar a cabeça com shampoo e condicionador estão dentro das possíveis tarefas que uma criança de sete anos pode/deve assumir. Não entendo dessas crianças.

Eu entendo é da Stella. Ou pelo menos entendia até esse episódio da novela...

7 comentários:

Ana disse...

Brinco que hoje perco o sono pelos dois só que de jeitos diferentes.
Aqui tb não vemos novela. Esses dias o amigo dormiu aqui e queria assistir, já que fazia isso com a mãe todos os dias. Fiquei um pouco assustada pqu novela das 8, e pior que voldermort! Disse não, obviamente e ele insistiu algumas vezes!
Sim a blogosfera e fechada de dicas, pensamentos sobre os 5 primeiros anos. Eu particularmente posso escrever exaustivamente sobre a lara, mas não falo sobre o Gabriel. As questões são mais sérias e bem privadas. Como um conteúdo que e acessado por centenas e diversas pessoas pode conter particularidades de um ser em formação?
não ia gostar nada nada se fosse comigo. Já sobre fraldas, sono, birra esse e nosso lugar comum!

Gabis Miranda disse...

Outro dia fui em uma festa em buffet, a sobrinha de uma amiga com 8 anos não queria saber de brincar, ficou sentada a mesa conosco, carinha fechada até que em um momento disse que queria seu PS, computador e não sei mais o quê...as meninas são moças desde muito cedo, impressionante. Já vi um monte com cabelos pintados, maquiadas, saltinho...não entendo tb....nessa idade eu brincava de boneca ainda. Rs

Mônica Japiassú disse...

É, Pri, tenho uma de 7 há 8 meses, e realmente é uma fase bem diferente, em que várias vezes nos pegamos na dúvida sobre dar ou não autonomia para ela ter suas próprias escolhas. Além disso, ainda tem a fase de achar que os amigos não gostam mais dela!
Aqui em casa as duas adoram ver Carrossel (a tal novela de criança do SBT), e eu vejo com elas e gosto muito tb. A novela me dá ótimas oportunidades para ensinar vários valores para minhas filhas!
Um exemplo: entrou um aluno novo na escola, que já tinha sido expulso de 2 outras escolas e era super-rebelde. Apareceram cenas da madastra maltratando o garoto e ele sentindo falta de sua mãe, que havia morrido. Pude mostrar para elas que as atitudes dele eram reflexo do tratamento que ele tinha em casa, com sua madastra

Beatriz Zogaib disse...

Queridíssima, eu amo novela! Sou a noveleira, daquelas que não gosta de perder capítulos não... Mas adorei seu post. Sensato, honesto e provocante. Até que ponto vale uma novelinha? Ou até mesmo desenhos animados? Sim, porque nessa faixa etária que inclui os pequenos de três e os maiores de 7, televisão, em nenhuma hipótese, deveria ser muito utilizada... E novela de criança é um desenho com gente... Não? Bem, tem desenho que é pior que novela de adulto! E, de fato, será que os maiores já podem escolher sozinhos?
Mas, vamos lá: eu me inspirei e vou escrever sobre novela amanhã no meu blog! Te convido a ler tudinho e te linko ok?
beijo e até
Bia
www.maedacabecaaospes.com.br

Elcio Hilan disse...

Bom, sou mãe de duas, de 05 e 03 anos. Aqui em casa NÃO assistimos novelas. Aqui é Desenhos, esportes e jornal. E diga-se, muito pouco. Rotina puxada, não sobra tempo pra nada...e se sobrasse eu iria DESPERDIÇA-LO assistindo novela pra que mesmo? Pra ver esposa traindo marido e vice versa, e tantas outras situações? Bom mas vamos ao caso CARROSSEL.
Dia desses, sim, estava eu mudando de canal e eis que...vejo a Maisa. E parei. Então começa a cena...Estava a Maisa e filha da Simony...Então num papo antes de durmir a Maisa fala: Ha...Queria tanto ter um NAMORADO...Ai a amiguinha concorda. Em seguida diz que quer ceiar. A Maisa DEBOCHA de sua "gordura" e chama de gorda ou algo assim. A amiguinha fica triste e ela se desculpa...Logo em seguida dois amiguinhos estao também se preparando para deitar...e a mae/vo não sei o que entra no quarto com uma bandeja de chamyto c/ cereal e oferece aos meninos, que comem super satisfeitos...PROPAGANDA. Pronto. Não precisei assistir nem mais 01 minuto pra confirmar que isso NÃO é novela de criança.
No caso do namoro...isso é assunto pra ser DESPERTADO em crianças de 05/06/07 anos?
No caso da PROPAGANDA, tudo bem, minhas filhas comem chamyto...Mas assim expor o produto de forma tão exposta? E se fosse um MIOJO? E ai?
Minha filha de 05 anos ja veio para casa falando que suas amiguinhas assistem novela..e não era carrossel não...porque nem era exibida ainda nessa época...
Sua atitude foi a mais prudente...proibir sem argumentos não adianta. Mas fazer a criança pensar, isso sim, adianta. Expor os benefícios/maleficios é o que tento fazer. De forma clara. Sem firulas.

Maemochileira disse...

Meu pequeno está entrando no mundo dos 7 anos agora tb... medo!! heheheeh..
bjs e boa semana! :)

Natalie disse...

Priscila,

ainda não sou mãe de filho com essa idade (Enzítolo tem 1 a e 2 m), de modo que tudo o que vou escrever são pitacos baseadas na minha experiência como filha.

Foi mais ou menos com essa idade que, num belo dia, "decidi" que já era adulta e que não brincaria mais. Claro que a decisão durou algumas horas, só até meus primos me chamarem pra alguma arruaça, e eu, claro, desdecidir ser adulta e decidir ser criança de novo (mas só mais um pouquinho, como eu lembro claramente de ter dito à minha mãe qdo comuniquei a ela a desdecisão).

Tudo pra dizer que acho natural que as meninas (especialmente elas, que amadurecem mais cedo) nessa idade comecem a querer se comportar com um pouco mais de autonomia. Sei que não é fácil fazer isso, mas, sabe?, pensando na minha experiência como filha, dê sim essa autonomia para ela. Claro, dentro de limites, mas, no que for possível (como parece ser o caso da novela do SBT), deixe sim que ela escolha. Faz bem danado pra autoestima dela e é bom também pra ela aprender a ir testando seus gostos, seus limites, conhecer mais a si mesma sem passar pelo crivo dos pais.

Meu pais, além de me dar certa autonomia, também incentivavam muito minhas inclinações naturais, pra, traduzindo, eu ter o que fazer e não ficar perdendo tempo com TV. Por exemplo: sempre gostei de escrever e, aos 7 exatamente, ganhei uma máquina de escrever. Rá, quem disse que eu assistia TV depois desse presente? Quase nunca. Acho que vc já faz essas coisas, posso estar chovendo no molhado, mas quis dar a ideia.

E proibir é sempre o pior caminho nesse caso. Meu pai me proibia de assistir ao Xou da Xuxa. Hoje meio que agradeço, porque eu assistia coisas bem mais interessantes que isso, brincava muuuito e nunca fui, como as minhas amigas, a apegada aquele monte de bobagens que Xuxa "vendia". Mas, como foi proibido por um tempo, durante esse tempo assistir o programa era a coisas que eu mais queria, até porque era cobrada na escola.

Qdo eu comecei a ver, odiei...

Enfim, são só ideias. Boa sorte aí.

bjos

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