quinta-feira, 5 de abril de 2012

Desenformação ( ou o processo de tirar da fôrma)

- Mãe, posso brincar?
- Não. Você tem que fazer a lição de casa e estudar.

Esse diálogo tem sido bastante comum aqui. Stella, aos seis anos, está no segundo ano do ensino fundamental. Passa cerca de 8 horas/dia na escola (sendo que duas delas aprendendo conteúdo em inglês) e tem tarefa todos os dias. Inclusive aos finais de semana. Tem uma rodada de provas por mês, uma de cada matéria: português, matemática, ciências e história/geografia. É uma aluna excelente (sua nota mais baixa foi 9,4) e fica muito contrariada se precisa faltar. Adora as professoras e, apesar de estar um pouco assustada com as brincadeiras violentas dos meninos no recreio, se dá bem com os amigos, como me confirmou a coordenadora da escola, em uma reunião recente que eu mesma convoquei. Destesta lição de casa e não consegue entender porque tem que dar provas de que sabe o que foi explicado.

Eu sou a Priscilla, trinta e quatro anos não assumidos, ex-aluna da escola onde a Stella estuda. Ou seja, sou produto do meio. O motivo pelo qual eu escolhi essa escola para as minhas filhas não está em nenhum ranking. O fator decisivo foi o acolhimento que senti desde a primeira vez que entrei lá, já como mãe. Sabe o sorriso que o olho dá? Pronto, me ganharam! Destesto ter que mandar minha filha fazer lição de casa porque sou absolutamente contra ter obrigação na hora do descanso. Acredito no ócio criativo e no direito à brincadeira livre.

Apresento-lhes também a Escola, instituição particular que, a partir do primeiro ano do ensino fundamental adota um sistema de apostilas, muito comum neste meio. Elas pautam as matérias, as lições e o conteúdo, garantindo a uniformização do aprendizado.

A partir daí que eu interrompo a narração de fatos e começo meus devaneios.

Desde que adentrei, junto com a minha filha, o universo da educação fundamental, senti uma ruptura abrupta na linha condutora dos acontecimentos pedagógicos. A espontaneidade, liberdade, curiosidade no ambiente escolar da educação infantil deram lugar à produção, cobrança, competição. Segundo algumas informações que andei colhendo por aí, tudo isso é normal, está de acordo com a fase que essas crianças estão enfrentando e é preciso prepará-las para o futuro. E se eles forem grandes vencedores, o grande prêmio será um diploma e a FORMATURA.

(En)formada
Mas eu não me CONFORMO de colocar minha filha na FÔRMA!

"Tenha todas as respostas certas e você ganhará o direito de ser enformada, de ser colocada em uma fôrma e poder seguir o padrão".

Essa brilhante conclusão não é minha, não. É do Rubem Alves, que escreve muito e bem sobre educação, faz mágica com o raciocínio e com as palavras. A releitura de seus livros tem sido, nos últimos meses, munição para cultivar essa minha insatisfação com o que é considerado normal e elaborar as minhas batalhas na escolha do caminho que eu gostaria de indicar para as minhas filhas.

Ando pensando (e sofrendo) muito em cima desse tema, percebendo e aprendendo que nem sempre as escolhas são perenes. Os quereres de uma mãe de uma criança de seis anos (e uma de quatro que adora dizer que tem seis) são agora todos passíveis de uma delicada DRF (discussão de relacionamento familiar), em busca de uma conciliação amigável entre a razão e a emoção, a maturidade e as possibilidades. Constantemente passando pelo crivo dele, claro, o sempre implacável orçamento familiar.

Entre a A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir e o sistema apostilado, deve ter - tem que ter! - uma resposta à minha busca e às minhas condições. Porque da fôrma sai bolo, não gente.

1 comentários:

Simone Miletic disse...

Oi Priscila,

Poxa, lembro de nós duas na minha sala falando justamente sobre isso. Para a minha Carol essa quebra foi muito triste e eu a vi perder o gosto por estudar, motivo pelo qual procurei esse meio termo em outro lugar.

Lhe dei mais tempo para se adaptar as mudanças: até o ano que vem, em que estará no 4º ano, ela tem pequenas avaliações mensais, sem consultas, cuja soma resulta em sua nota, sem semanas de provas aterrorizantes. Apenas na 5ª série, último ano dela na escola ela passará a fazer prova, sendo que até lá ela já ouve falar sobre isso e a cada ano essas pequenas avaliações vão sendo juntadas para ter mais cara da prova que virá.

Reconquistei o sorriso e o interesse dela no estudo. Hoje. Não sei amanhã. Acho que isso é uma coisa que temos de aprender como mães: não é que a decisão lá de trás estava errada, ela só não é mais a melhor saída agora, então a gente troca, até ser preciso trocar de novo.

Beijos

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