Faz um tempinho que deixamos de sintonizar os Terrible Twos* aqui. A última protagonista, uma loirinha amalucada, fez poucas e boas que renderam bons capítulos. Mas a série acabou e eu sabia, como espectadora fanática, que viriam novidades. Pois bem. Venho aqui compartilhar algumas cenas da mais nova novela da minha vida: The Fearless Fours**. Tem emoção, comédia, drama (muito drama), ternura. E estrelando, ela, a destemida.
* * *
- Mãe, hoje eu vou assim na escola:
- Mas assim vai doer seu pé! Os tênis são diferentes, como você vai conseguir correr?
- E daí? Eu quero!
Nesse exato momento, a mãe se lembra das sábias palavras de seu próprio pai: "Tem gente que aprende pelo amor e tem gente que só aprende pela dor" e conclui que não adianta insistir em antecipar os problemas. A tal da loirinha maluquinha precisa, ela mesma, tirar suas próprias conclusões. Então libera a menina para ir como quiser, mas sorrateiramente, esconde um pé de um dos pares na mochila da filha. Vai que ao longo do dia ela percebe que a mãe tinha razão...
Fim do dia, na expectativa de saber se o pé doeu, se ela sofreu bullying por ser diferente, a mãe vem com o interrogatório - mas não sem antes notar que os calçados continuavam trocados:
- E aí, como foi?
- Todo mundo riu de mim.
- E você ficou brava?
- Não, foi legal.
- Doeu o pé?
- Não.
- Amanhã você vai de novo assim?
-Ah, não... Chega.
* * *
A lógica implacável:
(irmã mais nova): - Mãe, eu não ouvo!
(irmã mais velha): - Não é "ouvo"! É ouço!
(irmã mais nova): - Mas eu não sou cachorra, eu não gosto de ousso. Então eu falo "ouvo".
"Eu vou no banheiro feminina porque eu sou menina. O banheiro feminino é para os meninos!"
* * *
Os quatro anos trouxeram a negação com força total e de um jeito bem mais sofisticado. Não importa o quê, ela quer o contrário do que a gente oferece: roupas, comidas, passeios, brincadeiras. Só pelo barato que dá o desafio de se reafirmar. Dia após dia, ela tem que "matar" um pouquinho o pai, a mãe e a irmã mais velha para fazer valer, perante todos, suas opções e sua própria existência. Freud explica?
* * *
*Os terrible twos acontecem por volta dos dois anos de idade, fase difícil de muitas birras da criança.
**Os fearless fours (= quatro destemidos) eu acabo de inventar, pois é assim que eu sinto a minha menina de quatro anos: nada pode abalar sua determinação em conquistar seu lugar no mundo. É uma fase deliciosa de descobertas de si, dos limites e do sentimento de pertencimento, para logo depois rumar para o desprendimento. E junto com ela, eu rumo para um grande aprendimento.
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