segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Delírios consumistas em outras paisagens ou Um pseudo tratado antropológico sobre enxoval em Miami

Mais do que trocar dicas, o post sobre o enxoval em Miami levantou opiniões acaloradas sobre o fato do brasileiro zarpar para ter delírios consumistas em outras paisagens. Alguns comentaristas ressaltaram aspectos bem interessantes que vão além do modelo mais hypado de carrinho ou da estampa mais fofa de macacões. Fiz do limão uma limonada (ou uma caipirinha, para quem está no  meu time) e tenho também minhas considerações, já que no post passado quem desatou o verbo foi a Paula.

Tomei a liberdade de editar os comentários, mas quem quiser le-los na íntegra, é só acessar esse post.
A Natália escreveu "antes de tomar essas decisões as pessoas deveriam pensar onde esses produtos foram produzido, quais as condições de trabalho e quem produz.(...) Sem pensar no que isso causa no mercado interno, o número de lojas de bebes que fecham são bem grandes e se perguntarmos para os lojistas qual o seu maior concorrente ele não vai dizer que é a loja da frente e sim Orlando e Miami (...)Mas vale a pena pensar sobre isso, já que culturalmente o brasileiro sempre pensa em se dar bem, sem pensar nas consequências."
E a Luana respondeu "Na verdade Natalia, aqui tambem se fabrica peças por menos de 3,00reais, mas se cobra 70 do consumidor final! vide escandalo da Zara, que nada mais é que 1 das muitas marcas que fazem isso!(...) sinceramente, quando entro em uma lojas pernambucanas (que não é nem de longe uma loja cara) e vejo um vestido breguinha por 50reais, sinto que estão me chamando de burra e ignorante, porque eu encontro um lindo maravilhoso por 30 a algumas horas de distancia isso incluindo o frete! é só entrar no ebay.com pra conferir! Assim fica dificil incentivar a industria brasileira né! Pra alguns itens ok, mas pra um enxoval não dá!"
A Lja contou o seu lado "Olá Natalia, concordo totalmente com você, realmente não pensamos que quando compramos "produtos de Miami" de onde vem, como são produzidos e como são tão baratos! Tenho contato com fabricantes de confecção infantil e idéia do custo de se produzir uma roupa de bebê aqui e infelizmente nunca vamos chegar no valor deles. "
E a Bianca contribuiu "Hj em dia trabalhando com os importadores daqui, tb sei o quanto eles pagam de imposto para trazer os produtos.... Muitas clientes minhas entram no Amazon e veem o $$ do produto que eu estou vendendo, mas os impostos aqui são abusivos mesmo. "

Na minha opinião, por tudo o que leio, a grande, enorme diferença entre os preços daqui e dos EUA se dá por dois fatores: o valor dos impostos e o custo de produção. Quando se diz que 4 bodies custam US$12, esse é o preço sem o imposto (que no estado da Flórida é cerca de 6%). Aqui no Brasil não faço idéia de quais impostos incidem sobre esse tipo de produto (são tantos que nunca fica claro o que a gente paga. IPI? ICMS? Quem sabe, me ajuda!) mas encarece, no mínimo, uns 20% qualquer produto - e olha que estou sendo conservadora no meu chute sobre essa porcentagem.
Vamos combinar que estamos tendo aqui um papinho bem classe média, já que é uma parcela restrita da população brasileira que pode se dar ao luxo de optar por onde fazer o enxoval do bebê, mas quem deveria se preocupar em regulamentar a concorrência e o mercado interno varejista não é o consumidor, que também paga impostos pesados em cima de seus parcos rendimentos, e sim o governo, que se estivesse interessado em aquecer o consumo, abaixaria as alíquotas. Mas isso significaria o aumento da inflação.
Por isso, infelizmente, cada um faz o que pode - mesmo que isso signifique dividir em 48 parcelas - para garantir produtos de uma qualidade que julga razoável para sua família. Não acho que seja uma questão cultural, como a Natália pontuou no comentário acima, mas sim uma questão social. A classe média - e aí me incluo - sabe que não pode contar com o paternalismo governamental dedicado às classes menos favorecidas e afoga suas mágoas torrando as milhas acumuladas em passagens para um paraíso que a receba - e a seus cartões de crédito - e afague-a.
Sobre as condições/locais de trabalho, existe trabalho escravo em todos os lugares, inclusive debaixo do nosso nariz. O escândalo da Zara foi a coisa mais hipócrita que "vazou" na imprensa. Por que será que o destaque maior foi para essa grande e internacional marca, que, não por um acaso, está avançando sobre o mercado latino americano faceira e rapidamente? Será que foi porque alguém deixou de pagar a propina combinada ou porque só eles - e mais meia dúzia de marcas chiques - é que não verificam as condições que as confecções das quais eles compram oferecem para seus contratados?
Acho que escrevendo e debatendo esse assunto aqui no blog - que mesmo de alcance restrito, faz um bom eco - posso fazer mais pela engrenagem da economia nacional do que deixar de comprar na Zara ou preferir pagar R$197 por um conjunto de camiseta e shorts infantil só porque é feito no Brasil. Não vou dar uma de moralista e cravar meu certo ou errado, mas a minha constatação é que, cada vez mais, aqui é cada um por si.

1 comentários:

MH disse...

Tem que ser né? Infelizmente. Lembro que a pequena já tinha nascido e uma dessas revistas semanais publicou o custo básico de fazer enxoval no Brasil e na Flórida. Lá é mais barato mesmo que você inclua o hotel e as passagens. Adoraria poder apoiar as empresas nacionais, mas meu dinheiro tem limite. E as varias lojinhas fofas para bebês aqui custam caro pra burro. EU não posso colocar preço no trabalho dos outros, mas tenho consciência de quanto POSSO gastar. E não é só enxoval, né? Toda mãe sabe que o guarda-roupa das crianças tem que ser renovado a cada 3-6 meses... Não é fácil!

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