
Muito legal a bandeira que a
Ceila, do Desabafo de Mãe levantou promovendo a campanha da Unicef para que os blogs maternos compartilhem suas histórias por uma
infância sem racismo.
Racismo, segundo o tio Aurélio, é a "doutrina que sustenta a superioridade de certas raças". A maioria das vezes associa-se essa palavra ao preconceito com os negros. Porém, quando li a definição, me veio na mente a imagem daquele senhor com bigodinho ridículo pregando absurdos racistas há uns 70 anos atrás. E é por aí que vai a minha história.
Somos todos brancos na família. Com diferentes tonalidades que vai desde o cor-de-rosa até o branco-oliva (pantone neles!). Combinações genéticas variadas que geraram, no nosso caso, uma filha de pele branca com olhos e cabelos castanhos e outra igualmente branca, com olhos azuis/verdes e cabelos loiros.

E daí?
E daí que desde que a loirinha nasceu, comecei a me sentir uma popstar cada vez que saía com minha bebezica. Era comum pessoas me pararem para olhar de perto a beleza ariana da minha caçula ou apontarem para ela e sairem cochichando "parece uma boneca" (fato: bonecas bebês vêm nesse padrão mesmo). Só que na maioria das vezes minha morena estava junto e era simplesmente ignorada. Transparente mesmo, saca? E quando era notada, vinha a pergunta inevitável: Ela é sua também? ou São irmãs? Ah, essa outra é
bonitinha também...
E essa situação de
quando os elogios não são tão benvindos me incomoda faz tempo.
A cena mais bizarra que eu já vivi sobre isso foi há uns meses atrás dentro de uma lanchonete. Estava almoçando com as elas quando uma menina - de uns 10, 11 anos - veio por trás de mim e me abordou pedindo meu lanche. Me pegou tão desprevenida que não consegui falar nada. Diante da minha mudez, ela apontou para a Lia e disse: Então me dá essa loirinha aqui e você fica com a outra.
Fiquei sem reação. Não sabia se botava ela para correr (ó instinto), se agarrava minhas filhas, se gritava. O paradoxo é que a garota reunia uma coleção de adjetivos passíveis de descriminação (moradora de rua, negra, pobre) mas nesse caso ela estava sendo a agente do preconceito.
O que eu tenho vivenciado com as minhas filhas me faz pensar o que leva as pessoas a se encantarem e tentarem reproduzir artificialmente os atributos da raça ariana (pele, olhos e cabelos claros). Será porque aqui esse biotipo é exótico? Será porque a mídia sugere que esse é o padrão desejável de beleza? Será que as palavras do
Führer ainda ecoam no subconsciente mundial?
Por causa desses episódios, cuido da auto-estima da Stella com muito carinho. Ela retribui dizendo que não adianta a Lia comer tanta Nutella porque não vai ficar com os olhos da cor de chocolate como os dela!
Tento tirar algum proveito dessas situações que continuam se repetindo (semana passada fui vacinar as meninas no posto de saúde e uma senhora, tentando remendar, falou que a morena era até mais
bonitinha do que a loirinha), para explicar que tudo na natureza vem em cores diferentes: olhos, peles, folhas, escamas, pelos, flores, etc. Assim é o nosso mundo e isso não faz com que ninguém seja melhor ou pior, cada um tem seu jeito e suas características. E também, sempre que cabe, emendo nesse assunto as escolhas da vida: cada um ama quem quer, independente de ser menino ou menina, e cada um reza se quiser, para quem quiser.
Acredito numa infância não só sem racismo, mas sem discriminação de cor, de amor, nem de credo.
Uma lição sobre o lugar das cores: o imperdível
Flicts do Ziraldo.